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sábado, junho 02, 2007

Uma Pessoa - Tomás

Sentado no alpendre, Tomás bebericava, preguiçosamente, o seu chá de menta com um olhar vago sobre o oceano que se estendia à sua frente. O mar revolto e as ondas na rebentação, com água a desfazer-se em espuma, anunciavam mais uma tempestade. O anoitecer abraçava o pedaço de terra onde anos antes tinha comprado aquela casa a um velho pescador.
P- Hoje pediram-me para homenagear alguém, por isso vim visitar-te.
T- Pensei que a homenagem fosse pública (riu ironicamente)
P- Como estás? – Perguntou Pedro, pousando o casaco sobre uma cadeira e servindo-se de chá.
T- Tão bem como uma velha carcaça, abandonada nas espirais da vida.
(um silêncio… abateu-se sobre eles e permaneceram imóveis perante aquelas ondas sem formas estáticas e definidas, permitindo todo o tipo de liberdades e abstracções)
P- Sabes qual é a diferença entre um cruzamento e uma encruzilhada?
T- Não!...Tu sabes?
P- Eu não. Pensei que tu soubesses! Dizem que é assim que está o estado da arte.
T- Num cruzamento ou numa encruzilhada?!
P- Sei lá!
T- Veio-me agora à memória que há uma breve nuance entre esses dois conceitos. E o estado da arte actual é uma rotunda avalanche de abstraccionismo.
P- Como assim?!
T- Nada tem tema, tudo é uma amontoado de formas disformes desde a pintura, a música, a literatura passando pelo cinema e até … a fotografia.
P- Achas então que a nossa época é mais uma encruzilhada?
T- É tanto assim que há uma tendência insidiosa para a rejeição de todos os caminhos que já percorremos na arte desde a antiguidade clássica.
P- Queres com isso afirmar que há um retrocesso em termos civilizacionais? Não te parece que seja mais uma época de transição?
T- Diria que é mais uma época de decadência ou melhor…de retrocesso.
P- Será?!
T- Dou-te alguns exemplos: antes, a música tinha uma preocupação suprema que era a melodia que lhe dava harmonia, equilíbrio e fluidez, hoje é mais imediatista tornando-se um amontoado de sons estridentes. O próprio conceito de conto alterou-se, antes tinha um ‘enredo’, era por ele que o leitor se envolvia na história, hoje ‘assenta em combinações de palavras que não visam contar uma história mas criar certas sensações estéticas’. A própria pintura distancia-se da grande pintura clássica e aproxima-se da arte africana, mais próxima da arte nos seus primórdios.
P- De qualquer forma esta é a época em que vivemos e manda o bom senso que vivamos de acordo com ela.
Tomás não respondeu e um silêncio constrangedor apoderou-se daquela cena de ‘partida de xadrez’ onde as personagens se esbatem numa espécie de planície aberta e sem fronteiras onde o infinito ameaça o Homem, paralisando-o.

Clique em cada link para ler os contos de todos os participantes nesta 6ª edição dos desafio de criação do Canto de Contos cujo mote é "Uma Pessoa".
Membros do Canto de ContosBill, Clarissa, Conteúdo Latente, Ipslon, Isa, Maite, Parrot, Pedro Pinto, PiresF, Raquel, Rui Semblano, Vanessa, Beatriz, Kaotica, Klatuu, Legível, Luís Teixeira, Rafaela, Ruy Soares, TB, Teresa Durães

terça-feira, março 06, 2007

História de uma Montanha que queria ser um vulcão

Posted by PicasaSerra da Arrábida, Março 2007

Em tempos idos, tão idos que a memória do Homem não alcança, uma Montanha elevou-se para além das suas congéneres e gritou a plenos pulmões: - Que um vulcão se desprenda das minhas entranhas e parta à conquista desse vasto mar que teima em desafiar-me diariamente.
Mas a Mãe Natureza não deu ouvidos a estes gemidos de adolescente que cresceu rápido de mais. Milénios e milénios, como é costume contar-se o tempo entre as montanhas, passaram e a pobre Montanha, desgostosa, por ali ficou cabisbaixa olhando o mar enquanto uma lágrima teimava em descer-lhe pelas encostas cada vez menos revestidas dos apêndices capilares – as árvores e outros seres vegetais.
Certo dia em que a Montanha já tinha desistido da sua inusitada pretensão, um senhor Relâmpago cansado de provocar desvarios por esse mundo, decidiu descansar por ali. Olhou à sua volta na tentativa de encontrar um lugar suficientemente abrigado de ventos e marés - com quem tinha travado sangrentas batalhas, onde pereceram milhares de seres de todas as espécies - e vislumbrou uma enorme montanha mesmo virada para o mar. Aproximou-se, entrou em negociações, mas a Montanha parecia relutante em abrigar tão indisciplinado e insurrecto sujeito travando-se das mais inefáveis razões. Ele defendia-se como podia tentando chegar a um acordo que fosse benéfico para ambos, pois estava convicto que era ali o lugar que procurava. Passadas umas décadas (pouco tempo, no tempo das montanhas), as negociações chegaram a bom porto e mediante uma cláusula em que o Relâmpago se comprometia a satisfazer-lhe o desejo, a Montanha deixava-o descansar nas suas encostas. Foi assim que a Montanha ganhou o seu vulcão ainda que em estado adormecido, mas é claro que os sonhos nunca se cumprem completamente. :)

terça-feira, dezembro 19, 2006

Para os que tropeçarem neste blog, um Feliz Natal

O Holy night/O night divine- Corrs

domingo, dezembro 10, 2006

Entre bonecos de neve :o)

(aquilo é a cara de um boneco de neve, ok?)

Corria o ano de 1967 e a pequena aldeia escondida no meio dos montes preparava-se para comemorar o Natal. O forno comunitário era o ponto de encontro das mulheres e onde se preparavam as mais diversas iguarias natalícias sempre acompanhadas de grandes nacos de conversa onde os temas variavam entre, a filosofia de trazer por casa e as notícias dos entes queridos. Por outro lado, os homens prosseguiam a sua azáfama na recolha de enormes troncos que depositavam no adro da igreja e se destinavam à grande fogueira de Natal. Aos miúdos era-lhes interdita a entrada nos ambientes dos adultos não lhes restando outra alternativa a não ser, ficarem entretidos a enrolar a neve em pequenas bolas que faziam rolar pela praça tornando-as gigantescas, comparadas com o seu petiz tamanho. Depois, encavalitando-se uns nos outros punham uma bola sobre a outra fazendo nascer assim os bonecos de neve que, enfeitavam com qualquer adereço que encontrassem ali, à mão de semear. A praça enchia-se, então, de enormes seres brancos que sorriam ao ver a alegria catraia que os rodeava. Mas o grande momento por que todos ansiavam estava para chegar, como acontecia todos os anos na véspera de Natal e já se sentia, no ar gélido de Dezembro, a expectativa que antecede os grandes acontecimentos que só as crianças realmente saboreiam.
A sra Etelvina era uma velhota pequenina e curvada pelo peso dos anos e pela fadiga de tantos caminhos percorridos na sua lida. Ninguém como ela conhecia aqueles montes e vales que separam, delicadamente, Portugal e Espanha. Delicadamente, é como quem diz, porque a fronteira era guardada, com unhas e dentes, por autênticos bulldogs que, se pudessem e os apanhassem, não deixavam de massacrar aqueles que se atreviam a fazer do pequeno contrabando o seu modo de vida. A Ti Vina, como os miúdos gostavam de lhe chamar, era uma destemida contrabandista de produtos de primeira necessidade e que vinha à aldeia para vender aquilo de que os aldeões careciam, a preços mais condizentes com os seus parcos rendimentos. Então perguntam-me vocês a causa de tanto alvoroço neste dia! Pois!…é que neste dia, todos os santos anos, a Ti Vina vinha à aldeia com mais tempo e depois de ter vendido tudo o que trazia literalmente às costas, dirigia-se para a praça, junto ao fontanário, onde as crianças já tinham ocupado o seu lugar à sua espera. Ela aparecia no meio delas, toda vestida de negro e com um xaile que lhe cobria grande parte do rosto encarquilhado e trigueiro que uns olhos de azeviche iluminavam. Olhava cada um deles atentamente e depois de se certificar que todos se tinham portado bem naquele ano, abria uma grande caixa de galhetas espanholas. Dezenas de pequenos braços estendiam-se até à caixa mas sem se atropelarem, pois sabiam que a Ti Vina arranjava sempre maneira de as galhetas chegarem para todos. Depois, seguia-se o momento mágico no meio de grandes e pequenas trincadelas nervosas nas bolachas…os contos…pois, os contos que a velha contrabandista lhes contava e que eram o melhor presente de Natal. Não eram contos de príncipes e princesas, eram histórias verdadeiras, contadas na primeira pessoa, autênticas aventuras que os faziam saltar os muros esdrúxulos que prendiam as suas almas. Ao anoitecer a Ti Vina fazia questão de se retirar de forma discreta e no meio da azáfama vespertina só os miúdos a viam desaparecer na última curva como ponto final que põe fim a um parágrafo.
A sra Etelvina nunca mais apareceu nas redondezas. Conta a lenda que naquela mesma noite um anjo, vestido de um branco tão alvo quanto a neve, a salvou de uma emboscada de salteadores e a levou para um reino longínquo, onde ocupa o digníssimo e alto cargo de “Contadora de histórias” para miúdos, graúdos e todos aqueles que gostam de ouvir contos.

Clique em cada link para ler os contos de todos os participantes nesta 5ª edição dos desafio de criação do Canto de Contos cujo mote é "Um conto de Natal"

Membros do Canto de Contos
Bill, Clarissa, Conteúdo Latente, Ipslon, Isa, Maite, Parrot, Pedro Pinto, PiresF, Raquel, Rui Semblano, Vanessa,
Convidados
Beatriz, Kaotica, Klatuu, Legível, Luís Teixeira, Rafaela, Ruy Soares, TB, Teresa Durães

domingo, maio 14, 2006

A Catedral Verde


Bernardo olhou à sua volta rodopiando sobre si mesmo. As vetustas e majestosas árvores erguidas verticamente, como se de colunas se tratasse, lembravam-lhe uma catedral verde que tivesse brotado do interior da terra. O chão pardacento onde se abriam enormes fendas, deixadas pelo estio prolongado, pareciam mosaicos que um deus tivesse desenhado pacientemente em horas de lazer. Sentiu uma paz desusada, quase etérea que o deixou entorpecido. Encostou-se a uma árvore e deslizou lentamente até ao chão. No mesmo instante, volumosas gotas de água começaram a desprender-se do céu e cairam no solo soltando grãos de poeira que se espalharam à sua volta. O ambiente tornou-se pesado e quase irrespirável. Levantou-se apressadamente e correu como um louco tentando em vão encontrar uma saída. Os troncos das árvores sucediam-se indefinidamente como que escarnecendo dele. Por mais voltas que desse, a enorme catedral continuava ali geometricamente absurda. Parou por instantes tentando dar rumo aos seus pensamentos já desvairados. O anoitecer caminhava a passos largos para a noite que se avizinhava fria e escura, cada estalido assumia agora proporções gigantescas e maquiavélicas que o aterrorizavam. No meio de uma enorme confusão mental ainda conseguiu pensar “Eu ando em círculos, o melhor é pôr os neurónios a trabalhar!”. Tentou visualizar, em retrospectiva, tudo o que lhe tinha acontecido até ali e desse modo acalmar-se. Tal como se tinha precipitado sem aviso, a chuva também cessou do mesmo modo. Um cheiro acre que lhe causava nauseas subia do solo agora lamacento. Prometeu a si próprio seguir em linha recta sem hipótese de qualquer distração. Cada árvore ficava agora para trás como pensamento que se arrumasse ordenadamente numa pequena gaveta e aí ficasse fechado sem hipótese de fuga.
- Bernardo, estás maluco? Há uma hora que andamos à tua procura...ao menos podias responder! Fartámo-nos de te chamar. Pensámos até em chamar os mergulhadores para te irem buscar ao fundo da lagoa.
Bernardo sentou-se no único banco de jardim que se encontrava ali à saída do bosque estrategicamente à espera de ser usado como local de repouso por aqueles que se aventurassem naquela terra inóspita. Olhou os amigos com uma expressão de alegria e alívio e em tom de zombaria...
- Vocês são uns exagerados. Admitam lá...que sem mim nem saberiam sair daqui.

domingo, março 19, 2006

Numa curva do tempo

Era uma manhã cinzenta de inverno, do céu de chumbo desabava uma chuva intensa que, aliada ao vento norte, tornava quase impraticável qualquer avanço pela rua meio inundada. Laura entrou na estação do Rossio, não sem antes verificar as horas no relógio emoldurado na fachada do edíficio neo-manuelino. Subiu os degraus que dão acesso à estação, comprou o bilhete para Sintra e olhou o painel do horário dos combóios. Faltavam apenas cinco minutos. Estava impaciente. Desde que se levantara, tinha aquela sensação estranha de intranquilidade. “Só podemos ser doidos, subir a Serra de Sintra até ao Castelo dos Mouros num dia destes.” – pensou. Mas aquela “quase” escalada estava combinada e ninguém quiz adiá-la por causa de uma “chuvinha molha tolos”. Sentou-se e olhava insistentemente o relógio de pulso que o Afonso lhe tinha oferecido no último aniversário, como se cada minuto fosse uma eternidade. Finalmente o combóio chegou, entrou na carruagem, havia pouca gente e muitos lugares vazios. Sentou-se logo no primeiro banco à direita disposta a recostar-se, o mais confortavelmente possível, e descansar mas não sem antes observar, como era hábito seu, as pessoas com quem partilhava o espaço.
No seu lado esquerdo, no outro banco, um homem de fato escuro e semblante sombrio olhava a chuva através da janela, quando um corvo roçou uma asa no vidro num voo quase suicida, enquanto o homem afagava o dorso de um gato que levava ao colo. Nesse instante o gato olhou para ela e, instintivamente, um arrepio de horror lhe percorreu o corpo. O gato era enorme, todo preto e tinha apenas um olho, no lugar do outro havia apenas um buraco. Afastou o olhar, na ânsia de esquecer aquela horrivel criatura. Mais à frente dois homens conversavam de forma amena e circunspecta mas Laura só acabou por ouvir “...elementar, meu caro Watson.” e calaram-se. No banco oposto um homem pequeno e já meio calvo, de bigode preto, bem aparado parecia entretido com a ponta dos seus sapatos pretos de verniz e a espaços batia com a bengala no chão. Laura pensou: “Aquele deve estar a conversar com as suas celulazinhas cinzentas”. No primeiro banco estava sentado um jovem casal de namorados tão entretidos um com o outro que se esqueceram, com certeza, que havia ali mais gente. Ouviam-se gritinhos e risos abafados por toda a carruagem.
Laura olhou para o relógio, tinham passado quinze minutos e continuavam no túnel. “Estranho” – pensou – “ já deviamos ter saído do túnel!” De súbito, as luzes apagaram-se e uma escuridão de breu abateu-se sobre a carruagem. O coração de Laura disparou, abriu desmesuradamente os olhos numa tentativa vã de ver algo e por breves instantes um silêncio penetrante caiu sobre todos. Nada bulia, até que um grito lancinante rompeu aquele estranho silêncio e a luz apareceu, encandeando-a. Os três homens da frente levantaram-se e dirigiram-se para a frente da carruagem. Inclinaram-se sobre o lugar onde a jovem estava sentada e exclamaram: “Está morta!”. Um corte profundo no pescoço de onde jorrava ainda sangue fresco tinha sido a causa da morte. Olharam para o parceiro que se encontrava ao lado, pálido como uma folha de papel. Dois dos homens entreolharam-se num tom de desafio e franzindo o sobrolho...
“Menina, o combóio vai partir. Horas de acordar.” – Laura abriu os olhos, olhou o velho chefe da estação e só se lembrou de perguntar: “Que horas são?”.