sexta-feira, setembro 08, 2006

...momento cultural :)

Silves 2006 - Fábrica do Inglês - Os Rhythm of the Dance

90 minutos de êxtase diante de dançarinos, cantores e músicos magníficos.
A Irlanda no seu esplendor.
(cheguei a perguntar-me como é que mulheres quase "esqueléticas" conseguiam ter tanta energia em cima do palco)
Impressionou-me imensamente uma das violinistas que, a solo, tocou e dançou sapateado simultaneamente.
Brilhantes.

 Posted by Picasa

quinta-feira, agosto 31, 2006

Finalmente recuperado...

...O GRITO de Munch.

Depois de dois anos desaparecido, a polícia Norueguesa conseguiu finalmente recuperá-lo. Poderemos novamente vê-lo no Munch Museum de Oslo.

Por isso, hoje recupero também um post de Janeiro.

Munch (por mim)


O horror
Estampado em faces ovais,
Réplicas sonoras
De um grito insondável
E profundo,
Cavado na própria desordem cósmica.
A angústia
Talhada nos recortes
De um horizonte diluido
Pela insistência atroz
da vulgaridade.
Ondas
Estonteantes de um céu
Impregnado do cheiro acre
da morte.

terça-feira, agosto 15, 2006

Em trânsito...

...uma breve pausa nestas férias...para recomeçarem por mais uns dias :)

Nuvens

Encantei-me com as nuvens, como se fossem calmas
locuções de um pensamento aberto. No vazio de tudo
eram frontes do universo deslumbrantes.
Em silêncio via-as deslizar num gozo obscuro
e luminoso, tão suave na visão que se dilata.

Que clamor, que clamores mas em silêncio
na brancura unânime! Um sopro do desejo
que repousa no seio do movimento, que modela
as formas amorosas, os cavalos, os barcos
com as cabeças e as proas na luz que é toda sonho.

Unificado olho as nuvens no seu suave dinamismo.
Sou mais que um corpo, sou um corpo que se eleva
ao espaço inteiro, à luz ilimitada.
No gozo de ver num sono transparente
navego em centro aberto, o olhar e o sonho.

António Ramos Rosa

segunda-feira, julho 31, 2006

Férias :)


Fiquem bem :)

quinta-feira, julho 27, 2006

Silent Sunlight

Silent sunlight, welcome in
There is work I must now begin
All my dreams have blown away
And the children want to play
They'll soon remember things to do
When the heart is young
And the night is done
And the sky is blue

Morning songbird, sing away
Lend a tune to another day
Bring your wings and choose a roof
Sing a song of love and truth
We'll soon remember if you do
When all things were tall
And our friends were small
And the world was new

Sleepy horses, heave away
Put your backs to the golden hay
Don't ever look behind at the work you've done
For your work has just begun
There'll be the evening in the end
but till that time arrives
You can rest your eyes
And begin again

Cat Stevens

quarta-feira, julho 26, 2006

A história dos agonizantes

No meio de tantas agonias, o ser humano ultrapassa-se em vãos esforços de se equilibrar. Mas lá vem uma gotinha de água que faz transbordar o copo e não há nada de positivo que se semeie e dê frutos duradouros. Resta apenas a miséria que se dilui em imagens esbatidas e sequências intermináveis de inglórias batalhas. É esta a história de uma humanidade onde os fracos são carne para canhão e os fortes se debelam em tabuleiros de xadrez longe de inóspitos cenários que vêem por binóculos, senão por telescópios.
Outra questão é a de saber qual a diferença entre a vida de um ser humano e a de outro e o peso que cada uma tem na ordem mundial. Talvez uma centena de Etíopes ocupem o mesmo espaço que um “obeso ocidental" (obeso aqui no sentido não literal). Se é assim podemos admitir que há uma proporcionalidade directa de uma centena de mortes por cada uma onde uma é qualificadamente mais importante que as cem mencionadas. Só assim se compreende que se dê tanta importância à morte de quatro pessoas que estão no terreno por livre e espontânea vontade e nem tanta assim às centenas que já pereceram. Fico chocada com o choque que algumas pessoas sentem diante desta realidade.

sexta-feira, julho 21, 2006

Friends will be Friends


"Who are you?" asked the little prince and added, "You are very beautiful to look at".
"I'm a fox", the fox said.
"Come and play with me" suggested the little prince. "I'm so unhappy".
"I cannot play with you", the fox said. "I'm not charmed".
"Ah! Please, excuse me", said the little prince. But after some thought, he added: "What does that mean - charm?"
"You do not live here", said the fox. "What is it that you are looking for?"
"I'm looking for men", said the little prince. "What does that mean - 'charm'?"
"Men", said the fox. "They have guns and they hunt. It's very disturbing. They also raise chickens.These are their only interests. Are you looking for chickens?"
"No", said the prince. "I'm looking for friends. What does that mean - 'charm'?"
"It's an act too often neglected", said the fox. "It means to establish ties."
"To establish ties?"
"Just that", said the fox. "To me you are still nothing more than a little boy who is just like hundred thousand other little boys. And I have no need of you. And you, on your part, have no need of me. To you, I'm nothing more than a fox like a hundred other foxes. But if you charm me, then we will need each other. To me, you will be unique in all the world. To you, I will be unique in all the world..."

in The Little Prince
Saint Exupéry

quinta-feira, julho 20, 2006

Pensamento do Dia

A indignação é um espasmo da inteligência. Ao acontecer frequentemente leva à perda da noção de nuances que equilibram a realidade e cai-se no maniqueísmo.

terça-feira, julho 18, 2006

Em actualização...

eu, digo.

Sim, porque agora preciso de pôr em dia a leitura dos blogs dos meus amigos da blogosfera :)

Um abraço para todos

segunda-feira, julho 03, 2006

Pois...

...já estamos nas meias-finais (quem diria?!!!!) ;)

E agora que venham os francesinhos :)

domingo, junho 25, 2006

GOLOOOOOOOOOOOOOO :)


Avançando para o seguinte :)

quarta-feira, junho 21, 2006

Aceitam-se apostas para o jogo de hoje :)))))


Eu aposto o meu iate em como ganhamos 3-1 :)

terça-feira, junho 13, 2006

Um ano depois

As palavras

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade

sábado, junho 10, 2006

Dia de Portugal


As armas e os barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
E em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
Entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;


Luís de Camões

domingo, maio 28, 2006

quarta-feira, maio 24, 2006

Deambulações

Num prisma de outro tempo
Sinto a alma esvair-se
De tudo e de nada
De angústias e certezas
De lágrimas e sorrisos
De dores e paixões
Que brotam desconexas
E nos deixam exaustas
Do muito que desejamos
Do tudo que perdemos
Da anedota em que nos tornámos
Para fugir ao tédio
Que nos avassala nos dias.
E as noites que mais não são
Do que o desejo inconfessado
Da terra infértil e murmurante
Que se esconde por detrás da máscara
Que se cola à nossa pele.

domingo, maio 14, 2006

A Catedral Verde


Bernardo olhou à sua volta rodopiando sobre si mesmo. As vetustas e majestosas árvores erguidas verticamente, como se de colunas se tratasse, lembravam-lhe uma catedral verde que tivesse brotado do interior da terra. O chão pardacento onde se abriam enormes fendas, deixadas pelo estio prolongado, pareciam mosaicos que um deus tivesse desenhado pacientemente em horas de lazer. Sentiu uma paz desusada, quase etérea que o deixou entorpecido. Encostou-se a uma árvore e deslizou lentamente até ao chão. No mesmo instante, volumosas gotas de água começaram a desprender-se do céu e cairam no solo soltando grãos de poeira que se espalharam à sua volta. O ambiente tornou-se pesado e quase irrespirável. Levantou-se apressadamente e correu como um louco tentando em vão encontrar uma saída. Os troncos das árvores sucediam-se indefinidamente como que escarnecendo dele. Por mais voltas que desse, a enorme catedral continuava ali geometricamente absurda. Parou por instantes tentando dar rumo aos seus pensamentos já desvairados. O anoitecer caminhava a passos largos para a noite que se avizinhava fria e escura, cada estalido assumia agora proporções gigantescas e maquiavélicas que o aterrorizavam. No meio de uma enorme confusão mental ainda conseguiu pensar “Eu ando em círculos, o melhor é pôr os neurónios a trabalhar!”. Tentou visualizar, em retrospectiva, tudo o que lhe tinha acontecido até ali e desse modo acalmar-se. Tal como se tinha precipitado sem aviso, a chuva também cessou do mesmo modo. Um cheiro acre que lhe causava nauseas subia do solo agora lamacento. Prometeu a si próprio seguir em linha recta sem hipótese de qualquer distração. Cada árvore ficava agora para trás como pensamento que se arrumasse ordenadamente numa pequena gaveta e aí ficasse fechado sem hipótese de fuga.
- Bernardo, estás maluco? Há uma hora que andamos à tua procura...ao menos podias responder! Fartámo-nos de te chamar. Pensámos até em chamar os mergulhadores para te irem buscar ao fundo da lagoa.
Bernardo sentou-se no único banco de jardim que se encontrava ali à saída do bosque estrategicamente à espera de ser usado como local de repouso por aqueles que se aventurassem naquela terra inóspita. Olhou os amigos com uma expressão de alegria e alívio e em tom de zombaria...
- Vocês são uns exagerados. Admitam lá...que sem mim nem saberiam sair daqui.

quinta-feira, maio 04, 2006

Os amigos

Os amigos amei
despido de ternura
fatigada;
uns iam, outros vinham;
a nenhum perguntava
porque partia,
porque ficava;
era pouco o que tinha,
pouco o que dava,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria -
por mais amarga.

Eugénio de Andrade

sábado, abril 29, 2006

The Sense of Wonder

For most of us, knowledge of our world comes
largely through sight, yet we look about with
such unseeing eyes that we are partially blind.
One way to open your eyes to unnoticed
beauty is to ask yourself, 'What if I had never
seen this before? What if I knew I would never
see it again?'


Rachel Carson

terça-feira, abril 25, 2006

199 anos e dois dias depois do nascimento de Turner aconteceria em Portugal o evento mais emblemático da sua história

...pelo menos para nós que estamos vivos e presenciámo-lo, quer estivessemos na capital, quer na província. Eu lembro-me desse dia. Era um dia de sol e como todos os dias preparava-me para ir para a escola. A casa estava demasiado silenciosa, a minha mãe nem sequer deixou cair a observação costumeira de que eu já estava atrasada. Estava a tomar o pequeno almoço quando a "bomba" explodiu na rádio. "Uma revolução!...mas como é que vai acontecer uma revolução?! E porque é que uma revolução está a acontecer?" Exclamações e perguntas de uma míuda naif de 10 anos. Debrucei-me da janela para ver melhor a "revolução", olhei para o meu lado esquerdo e só uma coisa era diferente das outras manhãs. Os meus colegas já iam para a escola e passavam junto daquela casa e nada bulia ali. Logo ali em que dois pares de pastores alemães eram capazes de nos comer só porque lhes faziamos umas provocações(zitas) quando passávamos. O que vale é que a rede do jardim era suficientemente forte para os manter do lado de lá e nós do lado de cá a rir a "bandeiras despregadas". Era estranho...parecia que os cães tinham desaparecido assim como que por magia. À tarde já sabiamos de tudo...aquela casa era nada mais nada menos que uma das famosas casas da PIDE. E a partir daí ouviamos, dos colegas de escola mais velhos, histórias horríficas do que se passaria lá.

domingo, abril 23, 2006

William Turner - faria hoje 231 anos (uma bonita idade) ;)


"None are more hopelessly enslaved than those who falsely believe they are free."
Johann Wolfgang von Goethe

John Mallord William Turner, um pintor de uma sensibilidade extrema. Pintou a Natureza no que ela tem de mais belo e perigoso, de magnífico e tenebroso. Deixou-nos uma imensa obra que nos fascina pela ostensiva capacidade de revelar a Natureza e com ela o mais íntimo do ser humano.

terça-feira, abril 18, 2006


Gosto do mar desesperado
A bramir e a lutar
E gosto de um barco mais ousado
Sobre esta rebeldia a navegar.


Miguel Torga

quinta-feira, abril 13, 2006

Páscoa Feliz


sábado, abril 08, 2006

Porque hoje é sábado :))))


Calvin: Hobbes, estás aí?
Hobbes: Não...já caí !
Calvin: Olha, tu não me assustes!
Hobbes: Não acreditas? então olha ;)
Calvin: aiiiiiiiiiii
Hobbes: eheheheheheh

quarta-feira, abril 05, 2006

Homenagem ao Papagaio Verde - Jorge de Sena

A pedido do Parrot num comentário do post anterior, um extracto do conto.

Este Papagaio foi oferecido a Jorge de Sena pelo pai (comandante da marinha) que o trouxe do Brasil e que se tornou o seu melhor amigo, que dava brilho à sua infância solitária e infeliz. Este extracto narra de forma simples mas dilacerante a perda do amigo.

“Um dia, quando, arquejante da rua e das escadas, cheguei à varanda, o Papagaio Verde estava inerte no canto da gaiola, com o bico pousado no chão. Peguei-lhe, aspergi-o com água, sacudi-o, com a mão auscultei-o longamente. Não morrera ainda. Levei-o para a sala, deitei-o nas almofadas, puxei a cadeira para junto do piano, e, enquanto com os dedos da mão esquerda lhe apertava a pata, toquei só com a direita a música de que ele gostava mais. As lágrimas embaciavam-me as teclas, não me deixavam ver distintamente. Senti que os dedos dele apertavam os meus. Ajoelhei-me junto da cadeira, debruçado sobre ele, e as unhas dele cravaram-se-me no dedo. Mexeu a cabeça, abriu para mim um olho espantado, resmoneou ciciadas algumas sílabas soltas. Depois, ficou imóvel, só com o peito alteando-se numa respiração irregular e funda. Então abriu descaidamente as asas e tentou voltar-se. Ajudei-o, e estendeu o bico para mim. Amparei-o pousado no braço da cadeira, onde as patas não tinham força de agarrar-se. Quis endireitar-se, não pôde, nem mesmo apoiado nas minhas mãos. Voltei a deitá-lo nas almofadas, apertou-me com força o dedo na sua pata, e disse numa voz clara e nítida, dos seus bons tempos de chamar os vendedores que passavam na rua: - Filhos da puta! – Eu afaguei-o suavemente, chorando, e senti que a pata esmorecia no meu dedo. Foi a primeira pessoa que vi morrer.”

terça-feira, abril 04, 2006

"Quanto eu disser..."

Quanto eu disser não ouças,
quanto eu fizer não vejas;
e, se eu estender as mãos,
não me estendas as tuas.

Aceita que eu exista como os sonhos
que ninguém sonha,
as imagens malditas que no espelho
são noite irreflectida.

Talvez que então
da pura solidão
eu desça à vida.


Jorge de Sena

sábado, abril 01, 2006

"O Dizedor de Poesia"


As palavras caem retumbantes numa cadência quase demoníaca de devorador de conceitos. Empresta a voz a qualquer género que cruze o seu caminho e as palavras saem expelidas por uma contusão trágica, um quase lamento lancinante.
Arranca sorrisos e mesmo risos à audiência, conservando uma postura grave como que desalinhada dos sentimentos e sensações que provoca.
Torna-se uma figura irreal. Despe-se de si próprio, encarna o poema e confunde-se com ele. Os gestos seguem as palavras ou serão as palavras que correm atrás dos gestos numa simbiose irrepetivelmente repetida.
É assim que lembro Mário Viegas da única vez em que estive na sua presença.

"As pessoas nascem - umas uns segundos, outras alguns anos - e morrem, à espera do amor, da felicidade, da paz, da utopia..." Mário Viegas

quarta-feira, março 29, 2006

Porque esta canção sempre me encantou...


There's a calm surrender to the rush of day
When the heat of the rolling world can be turned away
An enchanted moment, and it sees me through
It's enough for this restless warrior just to be with you

And can you feel the love tonight
It is where we are
It's enough for this wide-eyed wanderer
That we got this far
And can you feel the love tonight
How it's laid to rest
It's enough to make kings and vagabonds
Believe the very best

There's a time for everyone if they only learn
That the twisting kaleidoscope moves us all in turn
There's a rhyme and reason to the wild outdoors
When the heart of this star-crossed voyager beats in time with yours


Lyrics by Tim Rice
Music by Elton John

domingo, março 26, 2006

Enfim...

Os links novamente no template depois de entrar em negociações com este meu blog excessivamente temperamental(penso que me esqueci de alguns...só que não consigo lembrar-me de quais). Por "dá cá aquela palha" já está a fazer das suas e sem aviso prévio ou sinal de mudança de humor. Assim...de repente fica-se sem nada, com um URL na barra de endereços e com um écran branco. Na curta vida dele, já teve destes desplantes duas vezes, o que é um exagero, do meu ponto de vista. Da primeira vez deu-me para entrar em pânico. Sim, porque isto de ter um blog é uma grande responsabilidade e ficar sem ele é como perder um filho que se cria com muito carinho. Da segunda vez, como já estava elucidada como refazê-lo, fui calmamente republicá-lo tal qual marinheiro de água salgada que de repente se encontra em mar de doces ondas. Ainda falta acertar umas tantas coisas mas ele parece que está irredutível. Espero convencê-lo proximamente :)

quinta-feira, março 23, 2006

small drops


There’s an enormous pleasure
Watching the rain falling
Sometimes softly
Sometimes heavily.
And I
Behind the window
Watching the drops falling in the ground
Making bigger and bigger streams
And bringing life to the Earth.


*imagem "roubada" subrepticiamente ao Parrot.

terça-feira, março 21, 2006

O Silêncio

Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,

e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,

quando azuis irrompem
os teus olhos

e procuram
nos meus navegação segura,

é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,

pelo silêncio fascinadas.

Eugénio de Andrade

domingo, março 19, 2006

Numa curva do tempo

Era uma manhã cinzenta de inverno, do céu de chumbo desabava uma chuva intensa que, aliada ao vento norte, tornava quase impraticável qualquer avanço pela rua meio inundada. Laura entrou na estação do Rossio, não sem antes verificar as horas no relógio emoldurado na fachada do edíficio neo-manuelino. Subiu os degraus que dão acesso à estação, comprou o bilhete para Sintra e olhou o painel do horário dos combóios. Faltavam apenas cinco minutos. Estava impaciente. Desde que se levantara, tinha aquela sensação estranha de intranquilidade. “Só podemos ser doidos, subir a Serra de Sintra até ao Castelo dos Mouros num dia destes.” – pensou. Mas aquela “quase” escalada estava combinada e ninguém quiz adiá-la por causa de uma “chuvinha molha tolos”. Sentou-se e olhava insistentemente o relógio de pulso que o Afonso lhe tinha oferecido no último aniversário, como se cada minuto fosse uma eternidade. Finalmente o combóio chegou, entrou na carruagem, havia pouca gente e muitos lugares vazios. Sentou-se logo no primeiro banco à direita disposta a recostar-se, o mais confortavelmente possível, e descansar mas não sem antes observar, como era hábito seu, as pessoas com quem partilhava o espaço.
No seu lado esquerdo, no outro banco, um homem de fato escuro e semblante sombrio olhava a chuva através da janela, quando um corvo roçou uma asa no vidro num voo quase suicida, enquanto o homem afagava o dorso de um gato que levava ao colo. Nesse instante o gato olhou para ela e, instintivamente, um arrepio de horror lhe percorreu o corpo. O gato era enorme, todo preto e tinha apenas um olho, no lugar do outro havia apenas um buraco. Afastou o olhar, na ânsia de esquecer aquela horrivel criatura. Mais à frente dois homens conversavam de forma amena e circunspecta mas Laura só acabou por ouvir “...elementar, meu caro Watson.” e calaram-se. No banco oposto um homem pequeno e já meio calvo, de bigode preto, bem aparado parecia entretido com a ponta dos seus sapatos pretos de verniz e a espaços batia com a bengala no chão. Laura pensou: “Aquele deve estar a conversar com as suas celulazinhas cinzentas”. No primeiro banco estava sentado um jovem casal de namorados tão entretidos um com o outro que se esqueceram, com certeza, que havia ali mais gente. Ouviam-se gritinhos e risos abafados por toda a carruagem.
Laura olhou para o relógio, tinham passado quinze minutos e continuavam no túnel. “Estranho” – pensou – “ já deviamos ter saído do túnel!” De súbito, as luzes apagaram-se e uma escuridão de breu abateu-se sobre a carruagem. O coração de Laura disparou, abriu desmesuradamente os olhos numa tentativa vã de ver algo e por breves instantes um silêncio penetrante caiu sobre todos. Nada bulia, até que um grito lancinante rompeu aquele estranho silêncio e a luz apareceu, encandeando-a. Os três homens da frente levantaram-se e dirigiram-se para a frente da carruagem. Inclinaram-se sobre o lugar onde a jovem estava sentada e exclamaram: “Está morta!”. Um corte profundo no pescoço de onde jorrava ainda sangue fresco tinha sido a causa da morte. Olharam para o parceiro que se encontrava ao lado, pálido como uma folha de papel. Dois dos homens entreolharam-se num tom de desafio e franzindo o sobrolho...
“Menina, o combóio vai partir. Horas de acordar.” – Laura abriu os olhos, olhou o velho chefe da estação e só se lembrou de perguntar: “Que horas são?”.

sábado, março 18, 2006

sexta-feira, março 17, 2006

O Poeta

O Poeta beija tudo, graças a Deus...E aprende com as coisas a sua lição de sinceridade...E diz assim: É preciso saber olhar...”. E pode ser, em qualquer idade, ingénuo como as crianças, entusiasta como os adolescents e profundo como os homens feitos... E levanta uma pedra escura e áspera para mostrar uma flor que está por detrás...E comove-se com coisas de nada: um pássaro que canta, uma mulher bonita que passou, uma menina que lhe sorriu, um pai que olhou desvanecido para o filho pequenino, um bocadinho de Sol depois de um dia chuvoso...E acha que tudo é importante...E pega no braço dos homens que estavam tristes e vai passear com eles para o jardim...E reparou que os homens estavam tristes...E escreveu uns versos que começam desta maneira: “O segredo é amar...”.

Sebastião da Gama in Diário

terça-feira, março 14, 2006

Campanha contra o massacre de focas bébés no Canadá


Uma foca bébé. Sim, uma foca bébé doce e indefesa. Uma espécie em vias de extinção como há tantas. Devido à beleza do seu pêlo é morta, numa carnificina sem nome, durante dois meses no ano (meses esses em que as focas bébés se vestem deste pêlo que tantos homens invejam). E esta barbárie acontece num país que se auto-intitula de país desenvolvido. Quando é que o Homem pára para pensar que ele é apenas uma criatura deste planeta e não o seu dono!

Por favor, ajude a acabar com esta barbaridade


Envie uma mensagem ao PM canadiano.

Assine a petição aqui.

Via a A Sombra.

sábado, março 11, 2006

Concerto insólito

Na Guarda, no Auditório Municipal, teve lugar ontem dia 10 de Março um concerto, no mínimo, original. Um concerto de legumes, sim leram bem, de legumes. Claro que os legumes não eram os músicos mas eram os instrumentos musicais. Foi o concerto da First Vienna Vegetable Orchestra. Quando ouvi, ontem, a notícia no RCP, sim porque eu ouço o RCP sempre que ando de carro, fiquei estupefacta e triste por não ter a oportunidade de estar lá. Na altura ainda pensei levar o meu vegetal de estimação ao casting na esperança de também ser selecionado, mas enfim..era mesmo só para legumes. Podem ler mais sobre esta Orquestra aqui. Imaginem até onde vai a originalidade deste concerto! No final os legumes ainda servem para confeccionar uma sopa que é servida à audiência, para “aconchegar o estômago”. Aqui é perfeitamente e indubitavelmente legítimo usar a expressão “comer música” literalmente.

quinta-feira, março 09, 2006

Mensagem - Fernando Pessoa

Porque hoje Portugal e todos nós estamos de parabéns, por sermos uma nação que acredita nos sonhos e os transforma em realidade. Porque ter confiança e elevar a auto-estima nos faz ir mais longe, lembrei-me deste poema de Fernando Pessoa na sua Mensagem

Ó mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério
‘Spendia sobre as naus de iniciação

Linha severa da longínqua costa –
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe a abstracta linha.

O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp’rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte –
Os beijos merecidos da Verdade.

terça-feira, março 07, 2006

"Vales de silêncio e paraisos secretos"

O silêncio estridente percorre invariavelmente cantos recônditos dos cérebros nostalgicamente retidos algures num passado pouco distante, redobra-se em mil visões intransponíveis de um tom azulado e débil que se encolhe perante a visão etérea de uma ave que sobe no horizonte. A luz irradia uma audácia veneranda que toca com dedos de veludo o dorso magnífico do falcão que lança intérpido voo picado numa vã tentativa de superar as últimas horas de uma noite agonizante. Os primeiros raios de sol filtrados por arvoredos verde água, resquícios do orvalho da manhã, que aquecem a terra e lhe dão vida.
Sentimo-nos na obrigação de correr pelos dias com medo de não vivermos tudo, quando quanto mais corremos mais a vida nos foge, se esgota, se encurta. "O essencial é invisível aos olhos; só se vê bem com o coração!" Saint Exupéry
Nós fazemos o nosso paraiso, todas as manhãs :)

quinta-feira, março 02, 2006

Quando a manhã "nasce" cinzenta

"Ir ver o mar. Vê-lo de vez em quando e sempre com a mesma fascinação. O que é que vem dele para assim nos fascinar? A sua força imensa diante da nossa pequenez. O seu mistério visível e inquietante porque é o invisível da sua visibilidade. O irrisório da sua absurda convulsão e o aceno indistinto que vem de trás do horizonte e não sabemos o que é. O aroma a espaço, uma memória confusa de aventura, o sinal presente da sua infinitude ausente, a dilatação de nós a um poder imenso, um certo concluio com Deus."

Vergílio Ferreira in Pensar