quarta-feira, abril 05, 2006

Homenagem ao Papagaio Verde - Jorge de Sena

A pedido do Parrot num comentário do post anterior, um extracto do conto.

Este Papagaio foi oferecido a Jorge de Sena pelo pai (comandante da marinha) que o trouxe do Brasil e que se tornou o seu melhor amigo, que dava brilho à sua infância solitária e infeliz. Este extracto narra de forma simples mas dilacerante a perda do amigo.

“Um dia, quando, arquejante da rua e das escadas, cheguei à varanda, o Papagaio Verde estava inerte no canto da gaiola, com o bico pousado no chão. Peguei-lhe, aspergi-o com água, sacudi-o, com a mão auscultei-o longamente. Não morrera ainda. Levei-o para a sala, deitei-o nas almofadas, puxei a cadeira para junto do piano, e, enquanto com os dedos da mão esquerda lhe apertava a pata, toquei só com a direita a música de que ele gostava mais. As lágrimas embaciavam-me as teclas, não me deixavam ver distintamente. Senti que os dedos dele apertavam os meus. Ajoelhei-me junto da cadeira, debruçado sobre ele, e as unhas dele cravaram-se-me no dedo. Mexeu a cabeça, abriu para mim um olho espantado, resmoneou ciciadas algumas sílabas soltas. Depois, ficou imóvel, só com o peito alteando-se numa respiração irregular e funda. Então abriu descaidamente as asas e tentou voltar-se. Ajudei-o, e estendeu o bico para mim. Amparei-o pousado no braço da cadeira, onde as patas não tinham força de agarrar-se. Quis endireitar-se, não pôde, nem mesmo apoiado nas minhas mãos. Voltei a deitá-lo nas almofadas, apertou-me com força o dedo na sua pata, e disse numa voz clara e nítida, dos seus bons tempos de chamar os vendedores que passavam na rua: - Filhos da puta! – Eu afaguei-o suavemente, chorando, e senti que a pata esmorecia no meu dedo. Foi a primeira pessoa que vi morrer.”

14 comentários:

Maite disse...

Parrot
Espero não o ter impressionado com a minha escolha.
Sabe? Eu gosto de ler contos aliás, por falar em contos, já sinto saudades dos contos do PiresF.

Boa noite para si :)

Parrot disse...

Maite,
Espera não me impressionar??!!!! Não sou facilmente impressionável. 

De facto é um conto encantador....curiosa essa definição do papagaio como sendo uma pessoa.
Maite, é curioso que eu conhecia este texto e nunca me tinha chamado à atenção.....umas das poucas coisas que me lembrava era das frases que deixei em baixo.
Digamos que vc me "ensinou" a olhar com outros olhos para este conto.
Interessante.

Boa noite
Ps – Obrigado pela sua homenagem à “minha” espécie.

Maite disse...

Parrot
É interessante...isto de umas pessoas lembrarem umas coisas e outras, outras. Digamos que você lembrou o "bright side" e eu o "dark side" do mesmo conto.
Há dias assim...

Parrot, pode crer que este conto é uma grande homenagem à "sua" espécie. Um grande brinde à amizade.

Boa noite :)

Parrot disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
Parrot disse...

Maite,
Hoje apetece-me apenas deixar-lhe um beijo em forma de brinde à amizade.

Bom dia

PS - O post anterior foi apagado por mim....ainda estou meio a dormir

mtc disse...

Cara Maite :)


Um conto muito comovente...com um dark e um bright side :))

...querido e triste...

Uma boa tarde para si :)

Maite disse...

Parrot
Bom dia para si

Um abraço para si

Maite disse...

Cara Dreamer
Bom dia para si

mtc disse...

Cara Maite

A quilómetros de si ...
desejo-lhe um bom fim de semana :)

Maite disse...

Cara Dreamer

A quilómetros de si ...
desejo-lhe um bom fim de semana também :)

Clarissa disse...

A última frase é inesquecível.
Gostei muito.
Beijos e bom fim de semana :)

Maite disse...

Clarissa
Bom fim de semana para si :)

CN disse...

é um relato fantástico e verdadeiramente comovente.

Maite disse...

Apesar de ser um episódio verídico na vida do autor, ele foi um mestre na arte de o contar.

Boa tarde para si