segunda-feira, janeiro 16, 2006

Soneto

Correm turvas as águas deste rio
Que as do céu e as do monte as enturbaram;
Os campos florescidos se secaram;
Intratável se fez o vale, e frio.

Passou o Verão, passou o ardente estio;
Umas cousas por outras se trocaram;
Os fementidos Fados já deixaram
Do mundo o regimento ou desvario.

Tem o tempo sua ordem já sabida;
O mundo, não; mas anda tão confuso,
Que parece que dele Deus se esquece.

Casos, opiniões, natura e uso
Fazem que nos pareça desta vida
Que não há nela mais que o que parece.

Luís de Camões

3 comentários:

PortoCroft disse...

Eu não escreveria melhor! ;)

Polux2 disse...

Sempre actual, o nosso Bardo, Maite.

Como aqui. Deixo somente a 1ª quadra do soneto, para dar a palavra ao José Mário Branco: :)

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

(...)



"Mas se todo o mundo é

composto de mudança

Troquemos-lhe as voltas

Qu' inda o dia é uma criança"
__

O JMB sabe da poda. :)

Maite disse...

Caros Portocroft e Pólux
É uma verdade indiscutível que as palavras dos poetas são de uma actualidade fremente, ninguém como eles para expressar de forma concisa e bela sentimentos e realidades que todos sentimos e presenciamos.
Mas enquanto no poema de Camões há um certo fatalismo, no de JMB renasce a esperança.

Um abraço para ambos

P.S. Pólux, gosto das suas réplicas