Nova morada
Há 4 meses
"Atravessa esta paisagem o meu sonho dum porto infinito E a cor das flores é transparente de as velas de grandes navios Que largam do cais arrastando nas águas por sombra Os vultos ao sol daquelas árvores antigas..." Fernando Pessoa




Era uma manhã cinzenta de inverno, do céu de chumbo desabava uma chuva intensa que, aliada ao vento norte, tornava quase impraticável qualquer avanço pela rua meio inundada. Laura entrou na estação do Rossio, não sem antes verificar as horas no relógio emoldurado na fachada do edíficio neo-manuelino. Subiu os degraus que dão acesso à estação, comprou o bilhete para Sintra e olhou o painel do horário dos combóios. Faltavam apenas cinco minutos. Estava impaciente. Desde que se levantara, tinha aquela sensação estranha de intranquilidade. “Só podemos ser doidos, subir a Serra de Sintra até ao Castelo dos Mouros num dia destes.” – pensou. Mas aquela “quase” escalada estava combinada e ninguém quiz adiá-la por causa de uma “chuvinha molha tolos”. Sentou-se e olhava insistentemente o relógio de pulso que o Afonso lhe tinha oferecido no último aniversário, como se cada minuto fosse uma eternidade. Finalmente o combóio chegou, entrou na carruagem, havia pouca gente e muitos lugares vazios. Sentou-se logo no primeiro banco à direita disposta a recostar-se, o mais confortavelmente possível, e descansar mas não sem antes observar, como era hábito seu, as pessoas com quem partilhava o espaço.




