domingo, maio 28, 2006

quarta-feira, maio 24, 2006

Deambulações

Num prisma de outro tempo
Sinto a alma esvair-se
De tudo e de nada
De angústias e certezas
De lágrimas e sorrisos
De dores e paixões
Que brotam desconexas
E nos deixam exaustas
Do muito que desejamos
Do tudo que perdemos
Da anedota em que nos tornámos
Para fugir ao tédio
Que nos avassala nos dias.
E as noites que mais não são
Do que o desejo inconfessado
Da terra infértil e murmurante
Que se esconde por detrás da máscara
Que se cola à nossa pele.

domingo, maio 14, 2006

A Catedral Verde


Bernardo olhou à sua volta rodopiando sobre si mesmo. As vetustas e majestosas árvores erguidas verticamente, como se de colunas se tratasse, lembravam-lhe uma catedral verde que tivesse brotado do interior da terra. O chão pardacento onde se abriam enormes fendas, deixadas pelo estio prolongado, pareciam mosaicos que um deus tivesse desenhado pacientemente em horas de lazer. Sentiu uma paz desusada, quase etérea que o deixou entorpecido. Encostou-se a uma árvore e deslizou lentamente até ao chão. No mesmo instante, volumosas gotas de água começaram a desprender-se do céu e cairam no solo soltando grãos de poeira que se espalharam à sua volta. O ambiente tornou-se pesado e quase irrespirável. Levantou-se apressadamente e correu como um louco tentando em vão encontrar uma saída. Os troncos das árvores sucediam-se indefinidamente como que escarnecendo dele. Por mais voltas que desse, a enorme catedral continuava ali geometricamente absurda. Parou por instantes tentando dar rumo aos seus pensamentos já desvairados. O anoitecer caminhava a passos largos para a noite que se avizinhava fria e escura, cada estalido assumia agora proporções gigantescas e maquiavélicas que o aterrorizavam. No meio de uma enorme confusão mental ainda conseguiu pensar “Eu ando em círculos, o melhor é pôr os neurónios a trabalhar!”. Tentou visualizar, em retrospectiva, tudo o que lhe tinha acontecido até ali e desse modo acalmar-se. Tal como se tinha precipitado sem aviso, a chuva também cessou do mesmo modo. Um cheiro acre que lhe causava nauseas subia do solo agora lamacento. Prometeu a si próprio seguir em linha recta sem hipótese de qualquer distração. Cada árvore ficava agora para trás como pensamento que se arrumasse ordenadamente numa pequena gaveta e aí ficasse fechado sem hipótese de fuga.
- Bernardo, estás maluco? Há uma hora que andamos à tua procura...ao menos podias responder! Fartámo-nos de te chamar. Pensámos até em chamar os mergulhadores para te irem buscar ao fundo da lagoa.
Bernardo sentou-se no único banco de jardim que se encontrava ali à saída do bosque estrategicamente à espera de ser usado como local de repouso por aqueles que se aventurassem naquela terra inóspita. Olhou os amigos com uma expressão de alegria e alívio e em tom de zombaria...
- Vocês são uns exagerados. Admitam lá...que sem mim nem saberiam sair daqui.

quinta-feira, maio 04, 2006

Os amigos

Os amigos amei
despido de ternura
fatigada;
uns iam, outros vinham;
a nenhum perguntava
porque partia,
porque ficava;
era pouco o que tinha,
pouco o que dava,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria -
por mais amarga.

Eugénio de Andrade

sábado, abril 29, 2006

The Sense of Wonder

For most of us, knowledge of our world comes
largely through sight, yet we look about with
such unseeing eyes that we are partially blind.
One way to open your eyes to unnoticed
beauty is to ask yourself, 'What if I had never
seen this before? What if I knew I would never
see it again?'


Rachel Carson

terça-feira, abril 25, 2006

199 anos e dois dias depois do nascimento de Turner aconteceria em Portugal o evento mais emblemático da sua história

...pelo menos para nós que estamos vivos e presenciámo-lo, quer estivessemos na capital, quer na província. Eu lembro-me desse dia. Era um dia de sol e como todos os dias preparava-me para ir para a escola. A casa estava demasiado silenciosa, a minha mãe nem sequer deixou cair a observação costumeira de que eu já estava atrasada. Estava a tomar o pequeno almoço quando a "bomba" explodiu na rádio. "Uma revolução!...mas como é que vai acontecer uma revolução?! E porque é que uma revolução está a acontecer?" Exclamações e perguntas de uma míuda naif de 10 anos. Debrucei-me da janela para ver melhor a "revolução", olhei para o meu lado esquerdo e só uma coisa era diferente das outras manhãs. Os meus colegas já iam para a escola e passavam junto daquela casa e nada bulia ali. Logo ali em que dois pares de pastores alemães eram capazes de nos comer só porque lhes faziamos umas provocações(zitas) quando passávamos. O que vale é que a rede do jardim era suficientemente forte para os manter do lado de lá e nós do lado de cá a rir a "bandeiras despregadas". Era estranho...parecia que os cães tinham desaparecido assim como que por magia. À tarde já sabiamos de tudo...aquela casa era nada mais nada menos que uma das famosas casas da PIDE. E a partir daí ouviamos, dos colegas de escola mais velhos, histórias horríficas do que se passaria lá.

domingo, abril 23, 2006

William Turner - faria hoje 231 anos (uma bonita idade) ;)


"None are more hopelessly enslaved than those who falsely believe they are free."
Johann Wolfgang von Goethe

John Mallord William Turner, um pintor de uma sensibilidade extrema. Pintou a Natureza no que ela tem de mais belo e perigoso, de magnífico e tenebroso. Deixou-nos uma imensa obra que nos fascina pela ostensiva capacidade de revelar a Natureza e com ela o mais íntimo do ser humano.

terça-feira, abril 18, 2006


Gosto do mar desesperado
A bramir e a lutar
E gosto de um barco mais ousado
Sobre esta rebeldia a navegar.


Miguel Torga

quinta-feira, abril 13, 2006

Páscoa Feliz


sábado, abril 08, 2006

Porque hoje é sábado :))))


Calvin: Hobbes, estás aí?
Hobbes: Não...já caí !
Calvin: Olha, tu não me assustes!
Hobbes: Não acreditas? então olha ;)
Calvin: aiiiiiiiiiii
Hobbes: eheheheheheh

quarta-feira, abril 05, 2006

Homenagem ao Papagaio Verde - Jorge de Sena

A pedido do Parrot num comentário do post anterior, um extracto do conto.

Este Papagaio foi oferecido a Jorge de Sena pelo pai (comandante da marinha) que o trouxe do Brasil e que se tornou o seu melhor amigo, que dava brilho à sua infância solitária e infeliz. Este extracto narra de forma simples mas dilacerante a perda do amigo.

“Um dia, quando, arquejante da rua e das escadas, cheguei à varanda, o Papagaio Verde estava inerte no canto da gaiola, com o bico pousado no chão. Peguei-lhe, aspergi-o com água, sacudi-o, com a mão auscultei-o longamente. Não morrera ainda. Levei-o para a sala, deitei-o nas almofadas, puxei a cadeira para junto do piano, e, enquanto com os dedos da mão esquerda lhe apertava a pata, toquei só com a direita a música de que ele gostava mais. As lágrimas embaciavam-me as teclas, não me deixavam ver distintamente. Senti que os dedos dele apertavam os meus. Ajoelhei-me junto da cadeira, debruçado sobre ele, e as unhas dele cravaram-se-me no dedo. Mexeu a cabeça, abriu para mim um olho espantado, resmoneou ciciadas algumas sílabas soltas. Depois, ficou imóvel, só com o peito alteando-se numa respiração irregular e funda. Então abriu descaidamente as asas e tentou voltar-se. Ajudei-o, e estendeu o bico para mim. Amparei-o pousado no braço da cadeira, onde as patas não tinham força de agarrar-se. Quis endireitar-se, não pôde, nem mesmo apoiado nas minhas mãos. Voltei a deitá-lo nas almofadas, apertou-me com força o dedo na sua pata, e disse numa voz clara e nítida, dos seus bons tempos de chamar os vendedores que passavam na rua: - Filhos da puta! – Eu afaguei-o suavemente, chorando, e senti que a pata esmorecia no meu dedo. Foi a primeira pessoa que vi morrer.”

terça-feira, abril 04, 2006

"Quanto eu disser..."

Quanto eu disser não ouças,
quanto eu fizer não vejas;
e, se eu estender as mãos,
não me estendas as tuas.

Aceita que eu exista como os sonhos
que ninguém sonha,
as imagens malditas que no espelho
são noite irreflectida.

Talvez que então
da pura solidão
eu desça à vida.


Jorge de Sena

sábado, abril 01, 2006

"O Dizedor de Poesia"


As palavras caem retumbantes numa cadência quase demoníaca de devorador de conceitos. Empresta a voz a qualquer género que cruze o seu caminho e as palavras saem expelidas por uma contusão trágica, um quase lamento lancinante.
Arranca sorrisos e mesmo risos à audiência, conservando uma postura grave como que desalinhada dos sentimentos e sensações que provoca.
Torna-se uma figura irreal. Despe-se de si próprio, encarna o poema e confunde-se com ele. Os gestos seguem as palavras ou serão as palavras que correm atrás dos gestos numa simbiose irrepetivelmente repetida.
É assim que lembro Mário Viegas da única vez em que estive na sua presença.

"As pessoas nascem - umas uns segundos, outras alguns anos - e morrem, à espera do amor, da felicidade, da paz, da utopia..." Mário Viegas

quarta-feira, março 29, 2006

Porque esta canção sempre me encantou...


There's a calm surrender to the rush of day
When the heat of the rolling world can be turned away
An enchanted moment, and it sees me through
It's enough for this restless warrior just to be with you

And can you feel the love tonight
It is where we are
It's enough for this wide-eyed wanderer
That we got this far
And can you feel the love tonight
How it's laid to rest
It's enough to make kings and vagabonds
Believe the very best

There's a time for everyone if they only learn
That the twisting kaleidoscope moves us all in turn
There's a rhyme and reason to the wild outdoors
When the heart of this star-crossed voyager beats in time with yours


Lyrics by Tim Rice
Music by Elton John

domingo, março 26, 2006

Enfim...

Os links novamente no template depois de entrar em negociações com este meu blog excessivamente temperamental(penso que me esqueci de alguns...só que não consigo lembrar-me de quais). Por "dá cá aquela palha" já está a fazer das suas e sem aviso prévio ou sinal de mudança de humor. Assim...de repente fica-se sem nada, com um URL na barra de endereços e com um écran branco. Na curta vida dele, já teve destes desplantes duas vezes, o que é um exagero, do meu ponto de vista. Da primeira vez deu-me para entrar em pânico. Sim, porque isto de ter um blog é uma grande responsabilidade e ficar sem ele é como perder um filho que se cria com muito carinho. Da segunda vez, como já estava elucidada como refazê-lo, fui calmamente republicá-lo tal qual marinheiro de água salgada que de repente se encontra em mar de doces ondas. Ainda falta acertar umas tantas coisas mas ele parece que está irredutível. Espero convencê-lo proximamente :)

quinta-feira, março 23, 2006

small drops


There’s an enormous pleasure
Watching the rain falling
Sometimes softly
Sometimes heavily.
And I
Behind the window
Watching the drops falling in the ground
Making bigger and bigger streams
And bringing life to the Earth.


*imagem "roubada" subrepticiamente ao Parrot.

terça-feira, março 21, 2006

O Silêncio

Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,

e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,

quando azuis irrompem
os teus olhos

e procuram
nos meus navegação segura,

é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,

pelo silêncio fascinadas.

Eugénio de Andrade

domingo, março 19, 2006

Numa curva do tempo

Era uma manhã cinzenta de inverno, do céu de chumbo desabava uma chuva intensa que, aliada ao vento norte, tornava quase impraticável qualquer avanço pela rua meio inundada. Laura entrou na estação do Rossio, não sem antes verificar as horas no relógio emoldurado na fachada do edíficio neo-manuelino. Subiu os degraus que dão acesso à estação, comprou o bilhete para Sintra e olhou o painel do horário dos combóios. Faltavam apenas cinco minutos. Estava impaciente. Desde que se levantara, tinha aquela sensação estranha de intranquilidade. “Só podemos ser doidos, subir a Serra de Sintra até ao Castelo dos Mouros num dia destes.” – pensou. Mas aquela “quase” escalada estava combinada e ninguém quiz adiá-la por causa de uma “chuvinha molha tolos”. Sentou-se e olhava insistentemente o relógio de pulso que o Afonso lhe tinha oferecido no último aniversário, como se cada minuto fosse uma eternidade. Finalmente o combóio chegou, entrou na carruagem, havia pouca gente e muitos lugares vazios. Sentou-se logo no primeiro banco à direita disposta a recostar-se, o mais confortavelmente possível, e descansar mas não sem antes observar, como era hábito seu, as pessoas com quem partilhava o espaço.
No seu lado esquerdo, no outro banco, um homem de fato escuro e semblante sombrio olhava a chuva através da janela, quando um corvo roçou uma asa no vidro num voo quase suicida, enquanto o homem afagava o dorso de um gato que levava ao colo. Nesse instante o gato olhou para ela e, instintivamente, um arrepio de horror lhe percorreu o corpo. O gato era enorme, todo preto e tinha apenas um olho, no lugar do outro havia apenas um buraco. Afastou o olhar, na ânsia de esquecer aquela horrivel criatura. Mais à frente dois homens conversavam de forma amena e circunspecta mas Laura só acabou por ouvir “...elementar, meu caro Watson.” e calaram-se. No banco oposto um homem pequeno e já meio calvo, de bigode preto, bem aparado parecia entretido com a ponta dos seus sapatos pretos de verniz e a espaços batia com a bengala no chão. Laura pensou: “Aquele deve estar a conversar com as suas celulazinhas cinzentas”. No primeiro banco estava sentado um jovem casal de namorados tão entretidos um com o outro que se esqueceram, com certeza, que havia ali mais gente. Ouviam-se gritinhos e risos abafados por toda a carruagem.
Laura olhou para o relógio, tinham passado quinze minutos e continuavam no túnel. “Estranho” – pensou – “ já deviamos ter saído do túnel!” De súbito, as luzes apagaram-se e uma escuridão de breu abateu-se sobre a carruagem. O coração de Laura disparou, abriu desmesuradamente os olhos numa tentativa vã de ver algo e por breves instantes um silêncio penetrante caiu sobre todos. Nada bulia, até que um grito lancinante rompeu aquele estranho silêncio e a luz apareceu, encandeando-a. Os três homens da frente levantaram-se e dirigiram-se para a frente da carruagem. Inclinaram-se sobre o lugar onde a jovem estava sentada e exclamaram: “Está morta!”. Um corte profundo no pescoço de onde jorrava ainda sangue fresco tinha sido a causa da morte. Olharam para o parceiro que se encontrava ao lado, pálido como uma folha de papel. Dois dos homens entreolharam-se num tom de desafio e franzindo o sobrolho...
“Menina, o combóio vai partir. Horas de acordar.” – Laura abriu os olhos, olhou o velho chefe da estação e só se lembrou de perguntar: “Que horas são?”.

sábado, março 18, 2006

sexta-feira, março 17, 2006

O Poeta

O Poeta beija tudo, graças a Deus...E aprende com as coisas a sua lição de sinceridade...E diz assim: É preciso saber olhar...”. E pode ser, em qualquer idade, ingénuo como as crianças, entusiasta como os adolescents e profundo como os homens feitos... E levanta uma pedra escura e áspera para mostrar uma flor que está por detrás...E comove-se com coisas de nada: um pássaro que canta, uma mulher bonita que passou, uma menina que lhe sorriu, um pai que olhou desvanecido para o filho pequenino, um bocadinho de Sol depois de um dia chuvoso...E acha que tudo é importante...E pega no braço dos homens que estavam tristes e vai passear com eles para o jardim...E reparou que os homens estavam tristes...E escreveu uns versos que começam desta maneira: “O segredo é amar...”.

Sebastião da Gama in Diário

terça-feira, março 14, 2006

Campanha contra o massacre de focas bébés no Canadá


Uma foca bébé. Sim, uma foca bébé doce e indefesa. Uma espécie em vias de extinção como há tantas. Devido à beleza do seu pêlo é morta, numa carnificina sem nome, durante dois meses no ano (meses esses em que as focas bébés se vestem deste pêlo que tantos homens invejam). E esta barbárie acontece num país que se auto-intitula de país desenvolvido. Quando é que o Homem pára para pensar que ele é apenas uma criatura deste planeta e não o seu dono!

Por favor, ajude a acabar com esta barbaridade


Envie uma mensagem ao PM canadiano.

Assine a petição aqui.

Via a A Sombra.

sábado, março 11, 2006

Concerto insólito

Na Guarda, no Auditório Municipal, teve lugar ontem dia 10 de Março um concerto, no mínimo, original. Um concerto de legumes, sim leram bem, de legumes. Claro que os legumes não eram os músicos mas eram os instrumentos musicais. Foi o concerto da First Vienna Vegetable Orchestra. Quando ouvi, ontem, a notícia no RCP, sim porque eu ouço o RCP sempre que ando de carro, fiquei estupefacta e triste por não ter a oportunidade de estar lá. Na altura ainda pensei levar o meu vegetal de estimação ao casting na esperança de também ser selecionado, mas enfim..era mesmo só para legumes. Podem ler mais sobre esta Orquestra aqui. Imaginem até onde vai a originalidade deste concerto! No final os legumes ainda servem para confeccionar uma sopa que é servida à audiência, para “aconchegar o estômago”. Aqui é perfeitamente e indubitavelmente legítimo usar a expressão “comer música” literalmente.

quinta-feira, março 09, 2006

Mensagem - Fernando Pessoa

Porque hoje Portugal e todos nós estamos de parabéns, por sermos uma nação que acredita nos sonhos e os transforma em realidade. Porque ter confiança e elevar a auto-estima nos faz ir mais longe, lembrei-me deste poema de Fernando Pessoa na sua Mensagem

Ó mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério
‘Spendia sobre as naus de iniciação

Linha severa da longínqua costa –
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe a abstracta linha.

O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp’rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte –
Os beijos merecidos da Verdade.

terça-feira, março 07, 2006

"Vales de silêncio e paraisos secretos"

O silêncio estridente percorre invariavelmente cantos recônditos dos cérebros nostalgicamente retidos algures num passado pouco distante, redobra-se em mil visões intransponíveis de um tom azulado e débil que se encolhe perante a visão etérea de uma ave que sobe no horizonte. A luz irradia uma audácia veneranda que toca com dedos de veludo o dorso magnífico do falcão que lança intérpido voo picado numa vã tentativa de superar as últimas horas de uma noite agonizante. Os primeiros raios de sol filtrados por arvoredos verde água, resquícios do orvalho da manhã, que aquecem a terra e lhe dão vida.
Sentimo-nos na obrigação de correr pelos dias com medo de não vivermos tudo, quando quanto mais corremos mais a vida nos foge, se esgota, se encurta. "O essencial é invisível aos olhos; só se vê bem com o coração!" Saint Exupéry
Nós fazemos o nosso paraiso, todas as manhãs :)

quinta-feira, março 02, 2006

Quando a manhã "nasce" cinzenta

"Ir ver o mar. Vê-lo de vez em quando e sempre com a mesma fascinação. O que é que vem dele para assim nos fascinar? A sua força imensa diante da nossa pequenez. O seu mistério visível e inquietante porque é o invisível da sua visibilidade. O irrisório da sua absurda convulsão e o aceno indistinto que vem de trás do horizonte e não sabemos o que é. O aroma a espaço, uma memória confusa de aventura, o sinal presente da sua infinitude ausente, a dilatação de nós a um poder imenso, um certo concluio com Deus."

Vergílio Ferreira in Pensar

quarta-feira, março 01, 2006

The day after II


No dia seguinte ninguém morreu. ...
A tarde já ia muito adiantada quando começou a correr o rumor de que, desde a entrada do novo ano...não havia constância de se ter dado em todo o país um só falecimento que fosse. ...
Embora a palavra crise não seja certamente a palavra mais apropriada para caracterizar os singularissímos sucessos que temos vindo a narrar...a ausência da morte, compreende-se que alguns cidadãos, zelosos do seu direito a uma informação veraz, andem a perguntar-se a si mesmos...que diabo se passa com o governo que até agora não deu o menor sinal de vida. É certo que o ministro da saúde, interpelado à passagem...havia explicado aos jornalistas que, tendo em consideração a falta de elementos suficientes de juízo, qualquer declaração oficial seria forçosamente permatura. ... Poderia ter-se deixado ficar por aqui,....mas o conhecido impulso de recomendar tranquilidade às pessoas a propósito de tudo e de nada, de as manter sossegadas no redil...levou-o a rematar a conversa da pior maneira. Como responsável pela pasta da saúde, asseguro a todos quantos me escutam que não existe qualquer motivo para alarme, ...
No comunicado oficial, difundido já a noite ia adiantada, o chefe do governo...terminava afirmando que o governo se encontrava preparado para todas as eventualidades humanamente imagináveis, decidido a enfrentar com coragem...a extinção definitiva da morte...


As Intermitências da Morte de José Saramago

É verdade que eu sempre fui um pouco adversa às obras de Saramago, não pelos motivos que muito por aí circularam, mas porque não tinha paciência para a sua escrita. Depois recomecei a lê-lo com gosto (até porque penso que nestes últimos anos a sua escrita se modificou e se tornou mais solta) e agora estou a ler este e dou comigo a admirar-lhe o sentido de humor.

domingo, fevereiro 26, 2006

Um corte radical ;)


Não, não é isso que estão pensar....não é um corte de cabelo radical, até porque confinada como estou, às quatro paredes deste apartamento, não o poderia fazer (maldita constipação!).
Foi mesmo um corte radical no meu vegetal de estimação (um cyclamen Latinia). Vai fazer cinco anos agora em Março. (cinco anos! até eu me admiro por ela durar tanto tempo nas minhas mãos!). Mas o facto é que tem sobrevivido...mas admito que lhe dispenso diariamente, ao pequeno almoço, um pouco de atenção. Ontem comecei a pensar que aquelas folhas enormes, embora ainda viçosas, do ano passado estavam a mais. Então...peguei numa tesoura e sacrifiquei-as em prol das mais pequenas. Penso que a planta agradeceu porque hoje até as flores e as folhas estão um pouco maiores. Com isto tudo, ficou apenas com seis folhas e quatro flores (ainda por desabrochar). Parece um pouco despida mas penso que foi o melhor para ela. :)

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

Estou em completa expectativa!(...)

Versos por Maria invocados de modo desonesto por incompleto (Prometo te querer até o amor cair doente, doente/ Prefiro então partir a tempo de poder a gente se desvencilhar da gente). Só falta esperar do Pedro que agradeça o favor. Últimas frases caladas por não lhe convirem...Joguei limpo, aí estão, entre parêntesis, como a vida dele.
“Depois de te perder/ Te encontro com certeza/ Talvez num tempo da delicadeza/onde não diremos nada, nada aconteceu/ Apenas seguirei encantado ao lado teu”
Tempos de delicadeza e silêncio, nada aconteceu. Encontros por aí, terra pequena, você está bem? E ele encantado...
Desistir do amor será talvez inevitável, mas seguramente obsceno.


Final do Cap. VIII de Muros - JMV

O narrador é, por ventura, irritante de tão consciente do estado de alma de cada um, mas ao mesmo tempo é um elemento essencial da história, diria mesmo que se tornou também ele uma personagem sem querer.

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

"O amor entre duas pessoas é o que faz com que qualquer uma delas seja duas ao mesmo tempo" Agostinho da Silva

Ela quiz sentar-se no colo dele (pediu licença), ele aceitou. Ela abraçou-o com ternura, ele pediu-lhe para escreverem o texto a quatro mãos, ela anuiu. Ele teclava uma frase, ela teclava a seguinte. Mas...ela sentiu uma ligeira brisa percorrer-lhe o corpo que a levou nas asas do vento...e fez Enter. Ele surpreendeu-se (porque não havia ali nenhum parágrafo) e o texto ficou para trás.
Ele e Ela entraram no mundo mágico:

Olhando o céu de chumbo
Enrolados como um novelo
De linha púrpura de seda
Gememos felizes por estar aqui!

De súbito...(as quatro mãos pararam de escrever) :)

sábado, fevereiro 18, 2006

Match Point

Hoje fui ver Match Point, até que enfim....
É um filme algo intrigante que versa o tema do papel da sorte na vida das pessoas (para não falar da questão da moralidade e da infidelidade). O protagonista, Chris é um professor de tennis e é bom naquilo que faz mas tem também muita sorte que o persegue durante todo o filme. E digo persegue, porque creio que a sorte, só por si, não é uma benção. O fim mostra que apesar da sorte, a sua consciência não lhe dá tranquilidade nem paz e apesar, de tudo parecer perfeito à sua volta, o seu interior está amargurado e impede-o de saborear a vida que escolheu. Sim, porque "nós somos também aquilo que escolhemos ser". Surpreendeu-me também a banda sonora toda feita de temas clássicos: "La traviata" e "Rigoletto" de Guiseppe Verdi, Rossini, Lloyd Webber
A nível de ambientes gostei especialmente de conhecer o interior do Gherkin e o apartamento deles mesmo à beira do rio Tamisa e com uma vista esplendorosa sobre o Big Ben e as Houses of Parliament. Tom, no final diz esta coisa extraordiária tão em desacordo com o momento que o protagonista vivencia: "I don't mind if he (the baby)isn't great, I would like him to be lucky."

Esta é a Keyra Knightley (a minha gatinha virtual) ;)


The sleeping cat by Arlette Steenmans

Hoje ainda dorme porque é fim de semana...mas é eléctrica...não passa p'la cabeça de ninguém as tropelias de que este bicho(não lhe vou chamar bicha, obviamente, porque ela não é!) é capaz, vendo-a dormir o sono dos justos ;))))))

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

E quando a gente se sente assim...?

Apetece-me deitar a vida para trás das costas
Esquecer que alguma vez existi
Ficar suspensa entre o norte e o sul
Em lugar nenhum.

Apetece-me deambular no meio do nada
Em lugares onde não há esperança
Assim como neste onde estou
E ficar lá, sem regresso.

Apetece-me dizer que não estou, que não sou
Que o que vêem é uma sombra.
Exígua sombra de nada.

Apetece-me escurecer debaixo da lua
Gritar um último grito de dor exangue
E desaparecer no meio das nuvens.

Aprendi que o dia seguinte é um outro dia em que tudo pode acontecer. Até o impossível ;)

domingo, fevereiro 12, 2006

Há dias assim...perfeitos :)

Bem!...há dias assim!....belos e inesperados. Hoje, como faço muitas vezes ao domingo, fui dar o meu passeio à beira mar. O mar estava especialmete bonito. Tão brilhante que parecia de prata e a espuma das ondas lambiam a areia contangiando-a de graça e ternura.
De tarde assiti a concertos. Inicialmente ouvimos um coro dirigido por uma maestrina Ucraniana que nos encantou com belas composições das quais destaco : “My Lord”, “A canção do mar” de Ferré Trindade, “Cantigas de Maio” de Zeca Afonso, “Edelweiss” escrita por Rodgers e Hammerstein e que faz parte da banda sonora de “Música no Coração” e a “Ode à Alegria” de Beethoven. Na segunda parte assistimos à prestação cativante de uma pequena “grande” orquestra dirigida por um maestro magnífico que conseguiu uma interacção invejável com o público. Ouvimos Mozart (destaco a “Pequena Serenata” de entre outras), valsas de Johann Strauss, uma ária de Vivaldi e imagine Pólux que até ouvi uma composição de Piazzolla tocada pela orquestra (magnífica).
E quando saí do auditório, crepúsculo já, a Natureza presenteia-nos com uma Lua enorme e esplendorosa “pedurada” num céu de dias de Verão. Há dias assim, de facto...perfeitos :)

P.S. e nas notícias ouvi, melhor li (porque não consegui ouvir nada), um discurso do Príncipe Aga Khan onde ele dizia que o progresso humano só será pleno quando a Humanidade conseguir viver a pluraridade de uma forma natural.

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Só para relaxar ;))))))

Sabem, aquelas revistas que nunca compramos, que estão em expositores nos supermercados e pelas quais passamos os olhos quando andamos às compras e estamos cansados de olhar para as prateleiras à procura do que queremos (eu faço sempre uma lista de compras, sou incapaz de me dirigir a um supermercado sem ela, é como um mapa, sem ela sinto-me perdida e não traria nem 1/3 do que preciso)...pois essas revistas :)))))))). No outro dia, num dia de chuva...sim muita chuva, folheava aleatoriamente uma dessas quando dei de caras com um artigo que me pôs a sorrir logo de manhã.

As meninas da Foz e da Lapa ;)

Na Foz: - “O Basconcelos e a Bánessa “bum” de férias para Barsóbia”
Na Lapa: - “A Kika e a Fafá vão viajar imenso “pó” leste”

No Algarve em pleno pino do Verão e numa praia a “abarrotar” de gente. As mesmas duas:
- “Oh ricaah, porque é que a menina fala assim? Não se percebe nada!”
- “Hum! Cum carago! Bai-te catar!”
- “O quê? Vai de carro pa Dakar? Que canseira!”

É claro que o artigo estava muito bem apanhado...mas eu só me lembro destas duas ;)))))))

terça-feira, fevereiro 07, 2006

Porque m'apetece



Porque gosto de ouvir Mozart quando estou alegre e quando estou triste, nos dias de sol e também nos dias de chuva...

Johannes Wolgang Amadeus Mozart viveu apenas 35 anos entre 1756 e 1791 porém, deixou para a posteridade uma esplendorosa obra que é a consubstanciação de tudo o que a Humanidade tem de trágico e cómico, de belo e tenebroso.
“Mozart tem a simplicidade suprema das coisas perfeitas, a simplicidade do essencial” – Helena Sá e Costa
“O que mais me atrai em Mozart é a capacidade que ele tem de esconder, por trás da construção perfeita e frásica do classicismo, as sombras e as áreas mais recônditas do ser humano, aquelas sensações inexprimíveis por palavras” - Alexandre Delgado

sábado, fevereiro 04, 2006

Hábitos estranhos

Eu gosto de desafios e não resisto a este que o Parrot me sugeriu ;)))))

Aqui estão alguns dos meus hábitos um bocadinho estranhos;)

-Gosto de me sentir perdida para ter o prazer de me encontrar (detesto GPSs)
-O despertador está sempre adiantado 3 minutos, mas mesmo assim penso sempre "já estou atrasada, bolas!" porque saio de casa sempre em cima da hora.
-Gosto de fazer amor de manhã, detesto fazer amor à noite.
-Sou sempre do clube onde joga o Victor Baía ;) (já fui do FCP, do Barcelona e agora sou do FCP, outra vez)
-Gosto de andar pela praia nos domingos de manhã quando ainda está deserta (detesto praias pequenas para o fazer)

Estou aqui a pensar a quem vou desafiar... ;)
Ah!! Ah!! Já sei ;)
Polux, Amok_she, sr noiseformind, RAM, Portocroft

P.S. hum! será que vão aceitar?!! ;)
É que eu também tenho este hábito estranho de tentar quase o impossível ;)

Campanha Contra o Terrorismo



Muçulmanos todos juntos: “Oh…que desilusão! E agora?!!!!!!”
Muhammed: "Agora, meus caros, deixem-me dormir descansado que vocês já me deram muito que fazer! E DESAPAREÇAMMMMMM, OUVIRAM. xô xô xô Todos lá para a Terra a expiar os vossos pecados. E quietinhos."

Oops...não resiti! a esta bricadeira mas que o assunto é sério, é.

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Citações (quase) soltas ;)

"É o silêncio manso e indeterminado das pedras e das coisas que esmaga o vazio das mil distâncias que preenchem os abismos" Pólux

"Procuro-te no silêncio agudo das arestas da noite" Pólux in Desencontro

"Existem pessoas e recordações que nos marcam e nos acompanham para toda a vida." Parrot

"tentativa de abrir a janela e voar para uma dimensão não terrena, não visível, não audível - em busca de PAZ." Circe

"...naturalmente que passámos logo para o Gasset sem nos termos detido no Hess...ai,ai...mulheres!...razão têm o nosso amigo legibile..." Amok_she

"As mulheres gostam de homens sensíveis mas não frágeis (díficil descobrir a diferença)..." Júlio Machado Vaz in Muros

"Há quem invente a luminosidade para não se desintegrar" Portocroft

"Amar é o caminho" Lobices

"É que dá-me um grande prazer em imaginar que de manhã a minha Mãe vai encontrar aquele Bule caríssimo e ultra-conservado da Alessi Michael a secar e vai fazer um chá (ou melhor ainda, um café) delicioso com ele." sr noiseformind in Quando eu fico em casa de minha mãe

"Aí (no meu escritório)não crescem as altas árvores ou o viço dos frutos luzidios. Nem amadurecem as pêras, nem os cachos uns sobre os outros na violência esmagadora da candura natural e lenta do mundo" Da. in A manh'ser

"a oliveira que tão bem conhecia e o mato rasteiro dobrado pelo vento agreste de norte que ali teimava em permanecer." PiresF in A Rua dos Contos"

segunda-feira, janeiro 30, 2006

Oxigénio

Oxigénio é o verdadeiro nome da peça de teatro encenada por Júlio Cardoso e levada à cena pelo grupo Seiva Trupe no auditório do Teatro do Campo Alegre no Porto.
Oh que xi génio! É o título de um artigo sobre Lavoisier escrito por alunos de uma escola do Porto e que está afixado à entrada do auditório.
Para começar o ambiente no auditório é mesmo de laboratório. O público senta-se em cadeiras muito desconfortáveis e veste batas azuis(não chegaram para todos) antes de entrar. Há duas bancadas, uma na frente da outra e o palco é no próprio chão do auditório, no meio das duas bancadas. O único adereço vísivel, logo no início, é uma pequena “piscina” de água quente que serve de sauna para as mulheres dos cientistas que estão em Estocolmo, a convite de Gustavo III, para esclarecer a questão “quem foi o primeiro cientista a descobrir o oxigénio”: Lavoisier, Scheele ou Priestley. Nas paredes laterais e, entre cenas da peça, são mostrados videos de moléculas em movimento, organizando-se e desorganizando-se e alguns também de luz fractal (eu chamei-lhe assim).
A peça move-se entre dois tempos, o século XVIII e o século XXI. Enquanto no séc:18 os três cientistas debatem a questão “quem foi o primeiro a descobrir o oxigénio”, no séc: 21 o Comité Nobel debate a atribuição do prémio retro-nobel a um destes três cientistas pela mesma descoberta.
O tema aglutinador da peça pode resumir-se nesta frase de Madame Lavoisier “O objectivo da ciência é o conhecimento mas, o objectivo dos cientistas é a reputação”. A peça é feita de simetrias e bipolaridades (o oxigénio é uma estrutura com essa caracteristica): o mundo antes e depois da revolução química; a fachada e os bastidores da ciência e os universos paralelos dos homens e das mulheres.
O actor que mais apreciei foi Fernando Landeira que desempenha o papel de Lavoisier e de um cientista do comité ( são 6 actores que desempenham o papel de treze personagens). A forma tão expressiva e cativante como interpreta a personagem quase que “obriga” o público a ser parcial e a escolher Lavoisier como o legítimo “pai” do oxigénio. Saliento, porém, que todo o elenco é magnífico.